Um clima de empolgação tomou conta de Porto Rico enquanto o artista local Bad Bunny, um dos maiores astros da música mundial, dá início nesta sexta-feira (11) à sua aguardada residência de shows na ilha.
As lojas estão esgotando produtos comemorativos, restaurantes estão criando pratos temáticos, e emissoras locais estão dedicando coberturas especiais ao que os moradores chamam de “mania Bad Bunny”.
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Bad Bunny, nascido Benito Antonio Martínez Ocasio, fará uma série de 30 shows que, segundo os fãs, buscam fortalecer o senso único de orgulho e resiliência porto-riquenhos diante da incerteza econômica, da gentrificação e dos efeitos duradouros do colonialismo.
Os primeiros nove shows da residência serão exclusivamente para moradores de Porto Rico. Os demais abrirão espaço para fãs de todo o mundo, com o objetivo maior de promover a rica cultura da ilha.
Todos os 30 espetáculos, que acontecerão na arena Coliseo de Puerto Rico, com capacidade para 18.500 pessoas, estão esgotados.
Dar prioridade aos porto-riquenhos nessa residência “demonstra que Benito está se dirigindo, antes de tudo, ao povo de Porto Rico”, disse Jorell Meléndez-Badillo, historiador da ilha.
Os shows também são vistos como um poderoso símbolo de autossuficiência porto-riquenha e da crença de que o território pode se manter de pé por conta própria, afirma Javier J. Hernández Acosta, diretor da Escola de Artes, Design e Indústrias Criativas da Universidad del Sagrado Corazón, em San Juan.
Ele enxerga os shows como uma oportunidade de exibir as artes criativas da ilha, que, segundo ele, são o “melhor recurso de Porto Rico para construir um futuro de desenvolvimento econômico, social e político”.
Antes do primeiro show, a atmosfera do lado de fora da arena era festiva, com música alta e vendedores oferecendo comida e produtos enquanto os fãs aguardavam para entrar.
“Estou animada, superanimada, muito feliz por ver o Bad Bunny ao vivo aqui em Porto Rico, o que é uma experiência única que só pode ser vivida aqui. Não é o mesmo que vê-lo em outro lugar do mundo”, disse Gilda Santos.
“Ele tem sido único, único mesmo, ao levar o nome de Porto Rico para o alto. E agora com essa residência, estamos aqui para que todos saibam que aqui é a ilha do encanto”, disse Jackeline Carrasquillo, fã vinda de Río Grande.
Afirmando a cultura porto-riquenha
Como território dos Estados Unidos, Porto Rico não tem status de estado, embora seus moradores sejam cidadãos americanos. Por não ser um estado, os porto-riquenhos não podem votar para presidente nas eleições gerais dos EUA. O território conta com um delegado no Congresso, chamado de comissário residente, que não tem direito a voto.
Conhecido como o Rei do Trap Latino, Bad Bunny frequentemente usa sua arte para amplificar as vozes marginalizadas do território americano e destacar as dificuldades enfrentadas — e superadas — por seus conterrâneos borícuas e por outros latinos.
Os shows incluem músicas de seu álbum mais recente, “Debí Tirar Más Fotos” (Deveria Ter Tirado Mais Fotos), que aborda temas como injustiça, deslocamento, gentrificação e colonialismo americano.
A faixa “Lo Que Le Pasó a Hawaii” (O Que Aconteceu com o Havaí), por exemplo, expressa preocupação de que o deslocamento populacional possa fazer com que Porto Rico perca sua identidade.
Num tom melancólico, ele canta: “Querem levar o rio e a praia. Querem meu bairro e minha avó longe. Não solta a bandeira, nem esquece o lelolai. Eu não quero que façam com você o que fizeram com o Havaí.”
O Havaí só se tornou o 50º estado dos EUA em 1959, mais de 60 anos após o governo americano derrubar sua monarquia.
Já a música “Nuevayol” celebra a diáspora porto-riquenha em Nova York e as contribuições dos latinos para os Estados Unidos.
Segundo o Pew Research Center, mais de 5 milhões de porto-riquenhos vivem atualmente no território continental dos EUA. Muitos deixaram a ilha nos últimos anos devido ao alto custo de vida, desastres naturais, crise energética e outras dificuldades.
“O tema e o espírito desse disco giram em torno de afirmar a cultura porto-riquenha diante do deslocamento físico e cultural do povo da ilha”, disse Meléndez-Badillo, professor da Universidade de Wisconsin-Madison, que vai assistir a um dos shows no fim de semana.
Alguns desses temas também aparecem em vídeos que acompanham as músicas, com textos informativos sobre a história de Porto Rico escritos pelo próprio Meléndez-Badillo a pedido da equipe de Bad Bunny.
Uma turnê mundial sem os EUA
Após a residência em Porto Rico, Bad Bunny fará uma turnê mundial — que, curiosamente, não inclui os Estados Unidos continentais, o maior mercado da indústria musical. Para Meléndez-Badillo, essa escolha é provavelmente um “posicionamento político”.
Fãs especulam que a decisão de excluir os EUA esteja relacionada às críticas recentes do cantor às políticas norte-americanas, como a repressão à imigração durante o governo de Donald Trump, que atingiu fortemente os latinos.
No início deste ano, ele publicou um story no Instagram com o que parecia ser uma batida da polícia de imigração (ICE), e chamou os agentes de “filhos da p***” por perseguirem pessoas apenas tentando trabalhar.
Questionado pela revista Variety sobre por que não se apresentaria nos EUA, Bad Bunny respondeu simplesmente: “Não é necessário”, destacando que os fãs norte-americanos já tiveram muitas oportunidades de vê-lo ao vivo.
Segundo Hernández Acosta, o artista está, essencialmente, dizendo aos EUA: “Vocês não são o centro do mundo” e que os porto-riquenhos “são quem define as prioridades aqui”.
Acima de tudo, ele conclui, os shows são uma chance de Porto Rico celebrar e se divertir depois de anos difíceis, incluindo a recuperação do devastador furacão Maria, em 2017: “A gente precisa celebrar as coisas. É pra isso que a vida serve.”
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Após anunciar vinda ao Brasil, Bad Bunny atinge pico global de buscas
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